22/11/17

Sete Pecados Rurais



Vencedora em quatro categorias da primeira edição dos Prémios Áquila - melhor ator principal (João Paulo Rodrigues), melhor filme, melhor atriz principal (Melânia Gomes) e melhor realizador (Nicolau Breyner)-; 7 Pecados Rurais foi o principal protagonista da edição de 2014 destes galardões que premiam a televisão e cinema portugueses.
Este filme de 2013 da companhia Cine Cool / Cinemate é uma versão cinematográfica do programa da RTP1 Telerural que exemplifica,  de jeito hiperbólico,  alguns preconceitos (infelizmente) evidentes na nossa sociedade, ainda que esta situação vai mudando pouco a pouco.
O filme começa com os protagonistas a caminho da central de camionagem para recolher as primas que chegam à aldeia de Curral de Moinas desde Lisboa e com as quais costumavam manter relações sexuais cada vez que elas visitavam a aldeia.
No caminho têm um acidente e morrem. Chegam ao céu e Deus diz-lhes que para voltarem à terra não podem cometer nenhum dos sete pecados capitais. Eles aceitam mas não sabem quais são os sete pecados dos que fala Deus e pecam constantemente.
São dois os pontos que gostava de analisar: a visão que os habitantes da aldeia têm dos habitantes da cidade e vice-versa; e a visão que os cidadãos têm da Igreja e da religião cristã.
Quanto ao primeiro ponto, observamos neste filme preconceitos como os seguintes: nas aldeias a gente não se lava, são brutos, violentos, mais feios, tolos e bêbedos. Não andam depilados como os da cidade (sentem nojo dos cidadãos da cidade porque se depilam) e andam desesperados à procura de sexo. Em geral são mais selvagens que os da cidade, mas é curioso ver como alguns habitantes da cidade (as primas) preferem a vida na aldeia; estão ``fartas´´ da cidade.
Quanto ao segundo ponto, penso que qualquer pessoa (até os mais crentes), no fundo,  estariam de acordo com as críticas dos protagonistas, Quim e Zé. Reconheceriam que, em geral  o desconhecimento da doutrina cristã é grande, principalmente entre os mais jovens. Também é interessante a imagem que os protagonistas têm do céu e que tão bem representada está no filme; e de Deus, representado pelo ator e realizador Nicolau Breyner.
Este ``luxo´´ do céu leva os protagonistas a duvidarem e a não saberem se é melhor morrer e ir para esse paraíso ou viverem atormentados na Terra. Porque viver sem pecar nunca pode chegar a ser um tormento.
Está claro que nestes momentos de crise, os portugueses, espanhóis e todo o mundo em geral necessitam divertir-se um pouco e 7 Pecados Rurais pode ser uma boa ajuda. Mas também pode ser perigoso que se use estes preconceitos como instrumento. Devemos ver este filme como uma caricatura hiperbólica da sociedade, não como um meio de propagação de preconceitos. É um filme com o que nos devemos rir desses preconceitos, não com os preconceitos.
(David Gonçalves da Cruz) 


21/11/17

Artur Maria Afonso



Se o maior representante de Barroso na pintura é Nadir Afonso, o seu pai, Artur Maria Afonso é possivelmente quem melhor representa esta região na literatura. São duas personalidades consagradas em Montalegre, Boticas e Chaves.
Artur Maria Afonso nasceu em Montalegre em 17 de Março de 1882. Trabalhou como aspirante de Finanças na vila de Montalegre, mestre-escola em Cambezes do Rio, na Repartição de finanças em Odemira e Murça e foi o fundador e diretor com apenas 18 anos e ainda em Montalegre, do jornal “O Barrosão”.
Mas foi, acima de tudo, um poeta tendo colaborado com todos os jornais que se publicaram na região, como o Intransigente, o Aquae Flaviae, O comércio de Chaves, o Ecos de Chaves e a A Voz de Trás-os-Montes de Vila Real.
Ao longo da sua vida desenvolveu uma vasta atividade literária. Alguns exemplos seriam: Boninas de Chaves, (1942) e Alvoradas, (1909). A título póstumo, o filho, Lereno, promoveu a publicação de mais dois: Orações ao Vento (1982) e Auras Perfumadas, sendo sua intenção publicar um último livro, já organizado, a demonstrar que foi riquíssimo o espólio poético de Artur Maria Afonso. Também a Câmara de Montalegre editou, em 1987, o Caderno Cultural n.° 8, sobre a Vida e Obra de Artur Maria Afonso, reunindo um trabalho premiado nos Jogos Florais (II) e toda a poesia que ele escreveu sobre Barroso, entre 1937 e 1957. A Câmara de Chaves teria uma atitude semelhante (1993), editando um interessante opúsculo e recolhendo a poesia dedicada a Chaves e ilustrada com vários trabalhos pictóricos (a cores) do filho Nadir Afonso. A esse opúsculo chamou A Terra dos meus amores.
Faleceu em Chaves na sua residência, em 2 de Julho de 1961.
Pode-se encontrar mais informação nos seguintes links:

23/02/16

Michel Yakini: Literatura Brasileira Contemporânea nas Periferias de São Paulo

No dia 28 de Janeiro de 2016, realizou-se na FFT uma palestra do escritor brasileiro Michel Yakini, co-fundador do Coletivo Literário Sarau Elo da Corrente e activista do movimento de literatura das periferias de São Paulo. Oferecemos aqui o PPT da palestra e duas breves gravações de recitações do seu livro Crônicas de um Peladeiro (2014).




Michel Yakini também publicou "Desencontros" (contos, 2007), "Acorde um verso" (poesia, 2012) e "Crônicas de um Peladeiro" (crônicas, 2014). Participou de diversas publicações e antologias: Pelas Periferias do Brasil. Volume I (2007 – Org. Alessandro Buzo. Suburbano Convicto Edições), Revista Grap (Grafismo e Poesia, 2007 – Unika Produções), Cadernos Negros. Volume 30, 32 e 36 (Contos, 2007, 2009 e 2013 – Org. Marcio Barbosa e Esmeralda Ribeiro. Quilombhoje), Sarau Elo da Corrente –Prosa e Poesia Periférica (2008 –Org. Michel da Silva e Raquel Almeida. Elo da Corrente Edições), Negrafias – Literatura e Identidade, Volumes I e II (2008/2009 –Org. Marciano Ventura. Ciclo Continuo) Antologia Sarau da Brasa, Volumes I e II (2009, 2010 –Org. Coletivo Cultural Poesia na Brasa), Do Luto a Luta, 2011 – Org. Mov. Mães de Maio. Antologia Sarau Perifatividade (2012, Coletivo Perifatividade), Antologia Sarau da Ademar (2012, Coletivo Sarau da Ademar) e Pode pá q é nois q tá (Antologia, 2012, Edições Mesquiteiros).
Mais informação em http://www.michelyakini.com/

05/01/16

Larouco (deus)



Lucía Fernández Palomanes
(Panorama de Literaturas e Culturas Lusófonas, 2015-2016)

A Serra do Larouco é uma serra localizada no norte de Portugal e no sul da Galiza, concretamente, na província Trás-os-Montes (no concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, Portugal) e nas câmaras municipais de Cualedro e Baltar, pertencentes à província de Ourense (Espanha).
          Na serra foram achadas duas aras dedicadas ao deus Larouco: Uma em Vilar de Perdizes, a qual foi encontrada em 1969 e foi levantada em 2007- 2008, na que se pode ler LARAVC/O D(...) MAX/VMO V(...)/ L(...) A(...) S(...) . Esta inscrição pode ler-se como LARAVC/O D(eo). MAX/VMO V(otum)/ L(ibens) A(nimo) S(olvit). (Cumpriu o seu voto com ânimo alegre a Larouco, Deus Supremo, Padroeiro Supremo). Atribui-se a Laravco Deo (Deus Larouco) o epíteto Máximo, adjetivo que normalmente se atribui a Júpiter. Junto com esta ara, estava outra, dedicada ao deus Júpiter. A inscrição da ara de Júpiter tem a gravura Iovi/ O(ptimo) Max(imo)/ Capito CARM(inus) (Capitão Carmínio ofereceu este altar a Júpiter Óptimo Máximo, com ânimo alegre).
A outra ara dedicada a Larouco achou-se no outro lado da serra, em Baltar (Espanha). A ara de Baltar tem a gravura "D(eo) REVE/LARAUCO/VALEN(us) APER EX/VOTO" (Para o Deus Reve dos Laroucos, de Valeno Aper, por uma promessa).
          Em São António de Monforte (Chaves, Vila Real) foi achada uma outra ara ainda Neste caso, o que podemos ler na inscrição é: LAROCVO/AMA PITIL/I FILIA LIBII(NS)/ANIMOV/ TUM RITVLI/ PRO MARITO SV(O).  A Larouco, de Ama Pitili, em cumprimento de um voto em favor do seu marido. Como se pode ver, neste caso não há nenhuma palavra que faça alusão a uma divindade, como Reve ou Deo, mas o caráter divino de Larouco é palpável ao haver uma mulher que dá uma ara como agradecimento a um voto a favor do marido.
          Embora muitos investigadores (como Bermejo Barrera 1986) achem que Larouco é um teónimo, isto parece não ser assim. Outros investigadores defendem a ideia de que Larouco é simplesmente um topónimo. Cabeza Quiles (2014) considera que Larouco, era um lugar sagrado ou de comunicação com a divindade, de maneira que as fórmulas Deo/Reve Laravco ou Laravco Deo Máximo devem ser entendidas como a/para o Deus/Reve do Larouco. Esta afirmação sustenta-se em que laro- e lar- vêm da língua celta e significam “chão”, “plano” ou “campo”. Com esta teoria concorda F.J González García. Para além disso, González García estabelece uma relação do Deus Larouco com as divindades do céu, o que também defende J.C Olivares Pedreño. Carlos Búa reconhece igualmente Larouco como topónimo, concretamente, como orónimo, rejeitando a teoria de Blanca María Prósper de Reve fazer referência a divindades aquáticas, já que é impossível que um mesmo rio tenha vertente em dois lados distinto da mesma serra.
          O culto ao Deus do Larouco foi substituído pelo culto cristão. Testemunho disto é que perto dos lugares onde se encontraram as aras foram construídas capelas, em Vilar de Perdizes uma delas foi consagrada à Nossa Senhora da Saúde e a outra, em Baltar, à Virgem da Assunção. Aliás, na igreja de São Miguel, em Vilar de Perdizes apareceu uma escultura que, em palavras do Padre Fontes, é uma representação do Deus do Larouco, que foi escondida nos muros da igreja para impedir misturar as duas religiões, o Cristianismo e o Paganismo. Apesar da cristianização, a população da área continuou a relacionar a Serra do Larouco com o trovão e a chuva, embora Reve Larouco provavelmente tenha sido um deus supremo (A Serra do Larouco era a maior e mais temida por certopela sua influência na chuva, rios, água, trovão, “Trovão no Larouco nunca é pouco”, Lourenço apud Pedreño 2002: 171).


Bibliografia
Quiles, Fernando Cabeza (2015). A toponimia de Galicia. Noia: Toxosoutos.
Bermejo Barrera, José Carlos (1986). Mitología y mitos de la Hispania prerromana II. Vol. 85. Madrid: Ediciones Akal.
Búa, Carlos (2009). “Hidronímia e teonímia” em Onomástica galega II: onimia e onomástica romana e a situación lingüística do noroeste peninsular. Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela.
Gago, Manuel (2012). “Mirarlle a cara a un antigo deus”, dispoñíbel en http://www.manuelgago.org/blog/index.php/2012/01/25/mirarlle-a-cara-a-un-antigo-deus/.
García, Francisco Javier González (2007)Los pueblos de la Galicia céltica. Madrid: Ediciones Akal.
Pedreño, Juan Carlos Olivares (2002). Los dioses de la Hispania céltica. Vol. 7. Madrid: Real Academia de la Historia,.
Prósper, Blanca María (2002). Lenguas y religiones prerromanas del occidente de la Península Ibérica. Vol. 295. Salamanca: Universidad de Salamanca.
________ (2009). "Reve Anabaraeco, divinidad acuática de las Burgas (Orense)." em Acta Palaeohispanica X Palaeohispanica 9, 203-214.

Outras fontes
Vídeo com o Padre Fontes (https://www.youtube.com/watch?v=Ih5tMBI3YK0).
Último acesso a todas as fontes: 18/10/2015.